sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

As competências essenciais na sociedade do conhecimento da UE

O princípio orientador da União Europeia (UE) é a aprendizagem ao longo da vida. Esta tem de ser proporcionada pelos sistemas de educação e de formação.


Assim, pede-se que estes saibam dar aos jovens formação inicial para se desenvolverem como pessoas, trabalhadores e cidadãos e que esta formação e educação seja para todos os jovens, incluindo os que por algum motivo estão numa situação de desfavorecimento. Destina-se igualmente aos desempregados de longa duração e aos que estando a trabalhar querem continuar a aprender.

Os sistemas de educação e de formação têm de saber dar formação contínua a todos os que já não sendo jovens querem continuar a aprender e têm de ter infraestruturas adequadas para essa formação ocorrer. 
Tem de se fomentar a aprendizagem ao longo da vida como resposta aos desafios colocados pela sociedade do conhecimento. A criação de um sistema de aprendizagem ao longo da vida tem de ser capaz de responder aos desafios de um modelo de desenvolvimento baseado na competitividade, na qualidade e na inovação.

As competências essenciais que os cidadãos da UE devem possuir são o garante da coesão social, do exercício de cidadania, do desenvolvimento pessoal e da integração laboral e pessoal dos cidadãos de modo a que não haja excluídos nem marginalizados e se possa fomentar a cidadania ativa para que se continue o processo de construção de sociedades democráticas.







Estas competências são fundamentais. Porém em 18 de dezembro de 2006, verificava-se que 1/3 dos trabalhadores da UE tinham baixas habilitações e a grande maioria não frequentava formação contínua, que a taxa de alunos que concluem o ensino secundário não aumentava e que a percentagem de alunos com 15 anos com competência de leitura permanecia igual.

Muito caminho havia a fazer… e há porque é assustador que em 2014 uma grande fatia de jovens portugueses não faça questão de tirar nenhum curso superior… 
Como se pode assim ser a melhor economia baseada no conhecimento?

Estratégia global única de educação e formação da União Europeia

Na União Europeia, a sociedade do conhecimento conta com o contributo crucial do sistema de educação e de formação para que a economia baseado no conhecimento da Europa seja a mais importante do mundo. Por isso, aposta na aprendizagem ao longo da vida e na adoção de uma estratégia única e global para a área da educação e da formação.





Esta estratégia desenvolve-se em dois campos: por um lado, apoiar os Estados membros na melhoria possível dos seus sistemas de educação e de formação, por outro a concretização de uma atividade transnacional em matéria de educação e de formação.

Esta atividade comum de educação e de formação é desenhada em 3 objetivos estratégicos que por sua vez se desenham em objetivos específicos num total de 13 objetivos a concretizar esta estratégia de educação e formação comum até, segundo a UE, 2010.


Os 3 objetivos estratégicos são:
1. Aumentar a qualidade e eficácia dos sistemas de educação e de formação;
2. Facilitar a todos o acesso aos sistemas de educação e de formação;
3. Abrir ao mundo exterior os sistemas de educação e de formação.


Estes 3 objetivos estratégicos desenham-se em 13 outros objetivos:

Os sistemas de educação e de formação na sociedade do conhecimento na UE

A sociedade do conhecimento é marcada pela inovação que constantemente parece estar a acontecer. Vivem-se tempos de mudança marcados pela globalização e pela economia baseada no conhecimento.
A União Europeia reconhece que a economia baseada no conhecimento só avança com o contributo e importância da educação e da formação no reforço das habilitações das pessoas. Neste sentido, o Conselho Europeu refletiu sobre a questão da educação e da formação e na Estratégia de Lisboa, apresentada em março de 2000, traça o rumo para a conquista do objetivo educacional na primeira década do seculo XXI na U.E.



APRENDIZAGEM AO LONGO DA VIDA


O Parlamento e o Conselho Europeu reconhecem que para fazer face a este tempo de mudança urge apostar nas pessoas e na área da educação e da formação, privilegiando o princípio orientador da aprendizagem ao longo da vida (desde a pré-escola à pós-reforma). «A aprendizagem ao longo da vida implica a construção de saberes estruturantes que permitam continuar a realizar aprendizagens durante todo o percurso de vida. Esses saberes, resultantes da integração de conhecimentos e capacidades de diferente natureza (quadros analíticos, saberes disciplinares, variáveis de contexto, saberes experienciais)» (Dias,2006:52)[1] são competências-chave, que deverão ser diversificados de modo a fazer face à complexidade da sociedade do conhecimento.



MAIS RESPONSABILIDADES DOS SISTEMAS DE EDUCAÇÃO E

 FORMAÇÃO

A sociedade do conhecimento exige atualizações constantes de saber de conhecimento pelo que traz implicações para a organização e responsabilidades do sistema de educação e de formação, o qual se vê obrigado a adaptar-se face às exigências da sociedade e da economia baseada no conhecimento.
A sociedade do conhecimento exige dos sistemas educativo e formativo mais responsabilidades e mais objetivos do que outrora quando o mais importante daqueles sistemas era a preparação dos jovens para a entrada no mercado de trabalho. Hoje, pede-se e espera-se do sistema educativo que proporcione a formação/desenvolvimento holístico: o pleno desenvolvimento pessoal de cada um, a preparação para o mercado de trabalho, para a integração na vida social, para a coesão social e para a o exercício de uma cidadania ativa e responsável que contribua para a edificação de uma sociedade democrática.
Na Europa dominada pela união de diferentes países, com culturas e línguas diferentes, o sistema educativo e de formação deve educar para a diversidade, para a prevenção da xenofobia, do racismo, para a promoção da coesão social, da tolerância e do respeito pelos direitos humanos.





[1] Dias, Marina (2006), “A educação pública portuguesa, a sociedade do conhecimento e os desafios do contexto europeu” in Noesis nº 66 de 22/6/2006 consultado em www.dgidc.min-edu.pt/data/dgidc/Revista.../reflexao_accao66.pdf acedido em 9/12/2014.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

É ALTURA DE MUDAR O RUMO DO SISTEMA EDUCATIVO?

O sistema educativo tem sido fortemente centralizado no poder central e na administração estatal e hoje tem-se a consciência de que o Estado tem limites e que a escola no seu contexto tem de dar respostas à comunidade onde se insere e essas respostas não são uniformes para todo o país. Para além disso, na sociedade democrática tem-se a perceção de que toda a sociedade deveria intervir na construção do sistema educativo que deseja e não deixar isso apenas nas mãos do Estado, porque a escola de hoje é deveras complexa.
As alterações que se tem vindo a verificar na sociedade e na economia têm que levar a uma ampla discussão sobre o sistema educativo que se tem que construir. Numa democracia, não se pode deixar a questão da educação apenas nas mãos do Estado. Os cidadãos têm que intervir.
O sistema educativo que temos em Portugal é um sistema herdado da tradição napoleónica francesa fortemente centralizado, concentrado no Estado. Contudo, com a democracia, com a participação dos sujeitos na vida ativa da polis e com a necessidade da escola ser uma organização de eficácia, seria altura de repensar em porque não o Estado delegar funções, exercer poder de tutela e descentralizar a sua função, dando mais poder às escolas e, consequentemente, mais oportunidade destas aumentarem o seu sucesso dando respostas mais adequadas ao seu meio e não estando tão cingidas à legislação emanada superiormente.

ALIANÇA ENTRE SISTEMA EDUCATIVO E TECNOLOGIA

Lemos na tese de doutoramento de Benedito (2007) que
«o aumento qualitativo e quantitativo dos sistemas educativos a sua complexidade – que põe à prova a capacidade das burocracias centralizadas em manter a qualidade do ensino ministrado; o aprofundamento da democracia consubstanciada na reivindicação de uma maior participação dos beneficiários do sistema educativo na definição, implementação e controlo das políticas educativas; o surgimento das novas tecnologias de informação e de comunicação como elemento importante na construção de sociedades de conhecimento e informadas constituem, seguramente, razões a considerar nos processos de descentralização [dos sistemas educativos], cujas vantagens não podem ser descuradas» (p.67)).

Nesta citação, apercebo-me das mudanças que as novas tecnologias trazem à  estrutura  os sistemas educativos...
Se as práticas dos professores incluírem as novas tecnologias como recurso e se forem bem exploradas permitem que a sala de aula se prolongue para além do edifício da escola. Ora, isto faz repensar o sistema educativo que temos e o que queremos. 



e práticas pedagógicas…








A utilização da tecnologia na sala de aula e na escola traz novos desafios e novas alterações ao processo de ensino e de aprendizagem e também, por sua vez, ao currículo e aos modelos de sistema educativo.
O b-learning é o resultado de uma articulação entre a sala de aula e a tecnologia num ambiente bem conseguido em que a sala de aula esteja integrada num programa multimédia bem desenhado. Fomenta a interação entre alunos-professor, alunos-alunos, alunos-saber/conteúdos. Também é dirigida e adaptada a alunos com NEE.
Este novo recurso de ensino e de aprendizagem implica diferentes recursos, diferentes espaços e uma nova abordagem dos processos didáticos que sejam capazes de explorar os pontos fortes da tecnologia online em contexto educativo e que segundo Angélica Monteiro e J. António Moreira (2013) passam pela «flexibilidade de tempo e espaço, sinergia a nível de partilha de ideias, possibilidade de diálogo refletido, centralidade do estudante, interação informal devido ao grau de anonimato proporcionado pelas tecnologias, acesso a materiais, fontes de informação e especialistas geograficamente distantes e possibilidade de inovação pedagógica» (p.36).

Sendo um recurso a explorar, não se pode descurar o papel do professor que não é anulado nem apagado, pelo contrário. Cabe ao professor garantir o acesso a todos, gerar motivação, possibilitar a participação de todos e intervir na troca de informações de partilha, corrigindo aos alunos, encaminhando-os na construção da sua aprendizagem.
Contudo, este novo recurso traz novos desafios, como novas formas e comunicar para professor e alunos, realçando que ambos são importantes e responsáveis pelo processo de construção de aprendizagens. Traz novos desafios à elaboração e conceção do currículo e à organização dos sistemas educativos uma vez que a sala de aula não se restringe ao espaço físico da escola. Esta prolonga-se nas salas virtuais de discussão, nas trocas de e-mailes, nos fóruns, na plataforma LMS, no portefolio digital, na web2,…

Cabe ao professor usar esta ferramenta como recurso didático e pedagógico, incorporando-a nas suas planificações e usando-a como um recurso com naturalidade, normalidade como se usa o manual, por exemplo. Assim, estar-se-á a contribuir para a sua rentabilização e para o desenvolvimento de comunidades de aprendizagem fortemente interativas onde não é descurada a componente social nem de ensino. Cabe à escola saber ensinar isto aos alunos, mas cabe sobretudo a cada professor ter consciência dessa necessidade premente para que nas suas práticas pedagógicas possa levar os alunos a aprender através, com e nos suportes tecnológicos, familiarizando-se com esse recurso tão necessário no seu futuro. Por arrasto, a escola e o sistema educativo pensarão nas alterações do currículo que daqui terão que nascer e da alteração do modelo de sistema educativo.

Bibliografia:

  •  Benedito, Narciso Damásio dos Santos (2007). CENTRALIZAÇÃO DE SISTEMAS EDUCATIVOS E AUTONOMIA DOS ACTORES ORGANIZACIONAIS. Processos colectivos de interpretação das orientações centrais,  tese de doutoramento apresentada à Universidade do Minho - acedida em http://educar.files.wordpress.com/2008/08/centalsisteduc.pdf
  • Monteiro, Angélica; Moreira, J. António; Almeida, Ana Cristina; Lencastre, José Alberto (2013). Blended learning em contexto educativo - perspetivas teóricas e práticas de investigação, Santo Tirso: De facto Editores (2ª edição).

TIPOLOGIAS DE SISTEMAS EDUCATIVOS

O sistema educativo dependendo da articulação entre os seus vários níveis de decisão pode ir mudando e alterando os seus princípios organizadores e vetores.
Os vetores indicam o caminho a seguir. Resultam da análise de fatores estruturantes da sociedade. Os vetores podem ser: seletividade (definir as condições de acesso a um curso ou ciclo de estudos), homogeneidade (decidir sobre a homogeneidade e heterogeneidade) e a funcionalidade (as razões de ser do curso). Destes vetores resultam princípios como o da gratuitidade, da universalidade, da obrigatoriedade, da diferenciação, da utilidade, da flexibilidade, da adaptabilidade, etc.

Tipologias de modelos de sistema educativo:
Modelo escandinavo – domina o vetor da seletividade e o princípio da igualdade de oportunidade. Dar a todas as crianças no mais longo de tempo possível as mesmas oportunidades para se desenvolverem.

Modelo anglo-saxónico - domina o princípio da diferenciação e da flexibilização. Assenta em tutorias ensino individualizado, em “fases” e não em classes. O objetivo é o desenvolvimento da criança.

Modelo germânico – assenta no vetor da funcionalidade, do princípio da utilidade, da continuidade e da adaptabilidade. Aposta o mais cedo possível na escolha de vias profissionalizantes, desde cedo há a orientação da via a seguir. Pretende favorecer a entrada na via profissional e social do aluno. Há interação do sistema educativo com o económico.

Modelo latino-mediterrânico – valoriza o vetor da homogeneidade. Há um tronco comum para dar respostas sociais, assenta em normativos legais. Assenta no confronto entre princípio da generalidade e da especialização, dando mais ênfase a este último. Alimenta um conflito entre a sociedade empregadora e a sociedade em geral.

UMA NOTA SOBRE O TERMO "SISTEMA EDUCATIVO"

O sistema educativo é um todo articulado em ordem à concretização de uma finalidade comum, a de educar, sabendo que o que se entende ou o que se espera da educação tem mudado ao longo dos tempos fruto dos sistemas que envolvem o educativo.
Note-se que se fala de sistema educativo – subentendendo-se que este educa e não apenas instrui (não se trata de sistema de formação nem só de ensino), tem, assim, preocupações que vão para além dos resultados e dos processos de aquisição de conhecimentos… a sua preocupação está na PESSOA. A educação tem tido ao longo do tempo sempre o mesmo objeto: o ser humano. A finalidade suprema também podemos dizer que tem sido mais ou menos a mesma: a descoberta do indivíduo e o encontro consigo mesmo. O que tem verdadeiramente mudado é o destinatário: outrora apenas crianças, hoje até os adultos vão à escola, pois há formação ao longo da vida!
O sistema educativo está estruturado em parâmetros que o balizam e que são, por exemplo, a idade de ingresso, o tipo de formação, o esquema de progressão, os modos e os momentos de avaliação, o perfil exigido, o número de anos que o compõem, a organização do sistema, etc.
 O sistema educativo é o resultado da articulação entre os níveis político, administrativo e técnico-pedagógico. Estão níveis/sistemas estão em constante interação o que faz com que se influenciam e sejam influenciados, numa tentativa constante e permanente de buscar um equilíbrio. Isto tem redundado em tantas alterações que se assiste de forma mais notória no sistema educativo.


O sistema educativo que hoje temos em Portugal vem na linha do que sucedeu com os sistemas educativos dos países desenvolvidos e mais concretamente com o francês. É resultado do confronto de diferentes grupos sociais com ideias diferentes sobre a educação. Surgiu no século XIX em resposta à emergência do capitalismo e à necessidade de se formarem pessoas para trabalharem numa sociedade em que o objetivo era gerar riqueza. Assim, quanto mais escolarização, mais estudos, mais riqueza geraria e mais emprego e melhor teria.